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    Contra o preconceito e o desrespeito

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    Como as mensagens e fotos contra o fumo nos maços de cigarro te afetam?
     
    O problema é o cheiro
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    Tenho uma conhecida extremamente engajada em liberdades políticas e sociais, extremamente antenada com todos os avanços da medicina e das ciências do meio ambiente. Vamos chamá-la de Mara, porque, de fato, é uma maravilha a propriedade com que discursa sobre aborto, direitos das mulheres, equidade entre os sexos, credos e classes sociais, liberalização da maconha e de outras drogas também. Cita exemplos de países onde a experiência pró-drogas só trouxe benefícios.

    Os direitos dos animais estão sempre na pauta do dia, os benefícios do vegetarianismo, a coleta seletiva de lixo, o mundo que se constrói para os filhos (ela tem dois), o aquecimento global, a emissão de gases do efeito estufa, sendo esta uma das razões mais citadas para ter se tornado vegan, como ela se intitula: a criação de animais para produção de carne, leite, ovos e afins é acusada de contribuir com cerca de 20% dos gases do efeito estufa, o metano, principalmente.

    Nas “happy hours” das sextas-feiras, regadas a cerveja e mandioca frita, apresenta inatacáveis argumentos de como viver mais e melhor, quais os hábitos mais saudáveis, como evitar câncer de cólon e de mama, como ter a pele mais sedosa e o cabelo mais brilhante.

    Como sou o único abstêmio e tabagista da turma, cedo ou tarde, torno-me exemplo de como viver mal e sem qualquer qualidade de vida ou prazer, escravizado por um vício que só traz malefícios. Não me defendo, deixo que falem. Ao final de duas ou três horas, lá pela oitava rodada, cada qual pega o seu carro e vai para casa, ou seja, é pouco tempo. Por outro lado, sou consciente e seguro do vício que escolhi, sei dos malefícios e também dos benefícios, de forma que não me comovem as brincadeiras muitas vezes de mau gosto do pessoal.

    Porém, nesta semana, perguntei porque ela é pró-tudo e antifumo, a resposta veio rápida sob aplausos dos presentes: ”O problema é o cheiro”.

    Vim para casa com esta frase na cabeça... E notei que o problema é bem maior. De fato, nunca havia parado para pensar nos porquês do incômodo que os fumantes se tornaram na sociedade, mas quanto mais analiso a questão, mais esbarro com situações não tão belas e desprendidas quanto querem pintar sobre a preocupação com a nossa saúde.

    Acredito que tudo tem começo e fim no egocentrismo que grassa a sociedade atual. A visão de uma parcela crescente da população é de que o mundo circunda à volta de cada um, tudo deve ser da forma que cada um entende que tem que ser, e ao se tentar viver em sociedade, onde a pluralidade é regra, os atritos são inevitáveis.

    Desta forma, nem vou me estender na completa falta de responsabilidade do ébrio que liga o carro e “seja o que Deus quiser”. Muito menos que, no concurso de bafio, a bebida alcoólica nada deixa a dever ao cigarro. Porém, a intolerância ao cigarro pode, sim, ser explicada por algo tão singelo quanto a fumaça produzida.

    As pessoas, de forma geral, passaram a achar que vivem em um mundo à parte, egoisticamente reafirmando que não têm laços com o ambiente que as cerca. Saber é diferente de estar consciente, e a fumaça do cigarro é um lembrete acintoso que conscientiza todos de que a pessoa ao lado respira o mesmo ar que o próximo expirou. Portanto, não sendo o ar individualizado e fornecido única e exclusivamente para ela, mas sendo um recurso compartilhado, o incômodo se instala.

    Porém, algo que todo mundo deveria lembrar é que somos, todos os seres do planeta, produtos de reciclagem. Tudo o que nos compõem ou que ingerimos já foi esterco, água parada, urina, lodo, animais e plantas em decomposição, gases e fumaça. Tudo é uma questão de arranjo molecular. Em média a cada dez anos, somos completamente recompostos, pois as nossas células morrem, são excretadas e retornam ao ciclo ambiental, enquanto ingerimos substâncias que dão origem às novas células, invariavelmente produtos de moléculas recicladas.

    Assim, o problema não é o cheiro, mas a lembrança de não sermos seres originais, criados com substâncias imaculadas, a qual é fortemente constatada quando um marcador como a fumaça de um cigarro sublinha que o mesmo ar já passou por vários pulmões.

    Uma experiência simples que eu já fiz é começar a tossir dentro de um metrô lotado. Tussa mesmo, como se fosse explodir. Rapidamente se forma ao seu redor um círculo vazio, com cidadãos preocupados com o seu próprio bem estar, fazendo o impossível para ficar longe de você.

    Desta forma, enquanto discretamente vírus e bactérias causadores de doenças reais e imediatas são inalados impunemente sem quaisquer cuidados ou precauções, o cheiro de fumaça que uma rajada de vento traz de dezenas de metros é o suficiente para provocar faniquitos em muita gente, da mesma forma que qualquer demonstração explícita que você pode ser uma ameaça. Por outro lado, segundo as informações do próprio Ministério da Saúde, qualquer ser racional vai entender que a fumaça expirada pelo fumante é dos ares mais estéreis que existem. Afinal, qual ser vivo unicelular pode sobreviver à ação das mais de 4700 substâncias tóxicas presentes no cigarro?

    Seguindo por esta linha de raciocínio, todo fumante torna-se um purificador de ar. Mesmo porque, ao expirar a fumaça, a maior parte das substâncias nocivas do cigarro já aderiu aos seus pulmões e não sai tão cedo, sendo expelida apenas com a urina, após a filtragem do sangue pelos rins.

    E o cheiro?

    Aromas são agradáveis ou desagradáveis conforme a pessoa individualmente assim os classifica e, portanto, um cheiro desagradável para uma pessoa pode ser extremamente agradável a outra.
    Nós, seres humanos, temos, entre as várias maravilhas que nos compõem, um ingrediente chamado de memória emocional. A denominação pomposa disfarça uma singela realidade, a de que recordamos do passado não apenas através de fatos racionais e reais, mas de sentimentos e de sentidos.

    Desta forma, o cheiro de cigarro ou qualquer outro, ao remeter às boas lembranças de familiares carinhosos, por exemplo, nos conforta e nos faz bem e, deste modo, torna-se agradável aos nossos sentidos.

    Assim, o real problema do cheiro não está na fumaça do cigarro, sequer no cheiro que impregna roupas e hálito de quem fuma. Longe disso. Mau cheiro, independentemente se a pessoa é ou não fumante, é resultado da falta de higiene bucal.

     

    José Ubiratan Pereira da Silva, de Campinas-SP, tem 47 anos, é servidor público e bacharel em Ciências Contábeis.

     

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